Segunda-feira, Setembro 15, 2008
Ega ergueu-se, atirou um gesto desolado:
- Falhamos a vida, menino!
- Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida qur se planeou com a imaginação. Diz-se: "vou ser assim, porque a beleza está em ser assim". E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. Às vezes melhor, mas sempre diferente.
Ega concordou, com um suspiro mudo, começando a calçar as luvas.
O quarto escurecia no crepúsculo frio e melancólico de inverno. Carlos pôs também o chapéu: e desceram pelas escadas forradas de veludo cor de cereja, onde ainda pendia, com um ar baço de ferrugem, a panóplia de velhas armas. Depois na rua Carlos parou, deu um longo olhar ao sombrio casarão, que naquela primeira penumbra tomava um aspecto mais carregado de residência eclesiástica, com a suas paredes severas, a sua fila de janelinhas fechadas, as grades do postigo térreos cheias de treva, mudo, para sempre desabitado, cobrindo-se já de tons de ruína.
Uma comoção passou-lhe na alma, murmurou, travando do braço do Ega:
- É curioso! Só vivi dois anos nesta casa e é nela que me parece estar metida a minha vida inteira!
Ega não se admirava. Só ali no Ramalhete ele vivera realmente daquilo que dá sabor e relevo à vida - a paixão.
- Muitas outras coisas dão valor à vida... Isso é uma velha idéia de romântico, meu Ega!
- E que somos nós? - exclamou Ega. - Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento e não pela razão...
Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses que se dirigiam só pela razão, não se desviando nunca dela, torturando-se para se manter na sua linha inflexível, secos, hirtos, lógicos, sem emoção até ao fim...
- Creio que não - disse o Ega. - Por fora, à vista, são desconsoladores. E por dentro, para eles mesmos, são talvez desconsolados. O que prova que neste lindo mundo ou tem de ser insensato ou sensabor...
- Resumo: não vale a pena viver...
- Depende inteiramente do estômago! - atalhou Ega.
Riram ambos. Depois Carlos, outra vez sério, deu a sua teoria da vida, a teoria definitiva que ele deduzira da experiência e que agora o governava. Era o fatalismo muçulmano. Nada desejar e nada recear... Não se abandonar a uma esperança - nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranqüilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada, que se chama o Eu, ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito Universo... Sobretudo não ter apetites. E, mais que tudo, não ter contrariedades.
Ega, em suma, concordava. Do que ele principalmente se convencera, nesses estreitos anos de vida, era da inutilidade de todo o esforço. Não valia a pena dar um passo para alcançar coisa alguma na terra - porque tudo se resolve, como já ensinara o sábio do Eclesiastes, em desilusão e poeira.
- Se me dissessem que ali embaixo estava uma fortuna como a do Rothschilds ou a coroa imperial de Carlos V, à minha espera, para serem minhas se eu para lá corresse, eu não apressava o passo... Não! Não saía desse passinho lento, prudente, correto, seguro, que é o único que se deve ter na vida.
- Nem eu! - acudiu Carlos com uma convicção decisiva.
E ambos retardaram o passo, descendo para a rampa de Santos, como se aquele fosse em verdade o caminho da vida, onde eles, certos de só encontrar ao fim desilusão e poeira, não devessem jamais avançar senão com lentidão e desdém.
Mathilde Wynne |
12:38 AM
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Mathilde Wynne |
12:24 AM
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Quinta-feira, Junho 26, 2008
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Mathilde Wynne |
10:51 PM
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Quarta-feira, Maio 28, 2008
There are places I'll remember all my life...
Às vezes bate uma vontade insuportável de voltar pra Lyon. As pessoas podem não entender, já que voltei antes do previsto. Mas a vontade é, sim, insuportável e teimosa, como se eu só pudesse ser feliz de verdade lá. Porque eu me adaptei e me acostumei com os hábitos de lá. De passar o dia inteiro fora de casa, sem suar, sem dor de cabeça, e comer na rua, e usar transporte público, passeando por uma cidade linda, e me perder nas praças, todo dia descobrindo uma rua nova, e chegar em casa à noite, tirar o cachecol e enfim respirar no quarto quente. E dormir toda enrolada e acordar novamente numa cidade linda, fria, e andar sozinha e solitária sem vergonha, entrar no tramway, sair do metrô... o problema é que não consegui conciliar a saudade e a solidão com tudo isso. Mas se consegui aguentar seis meses, por que não aguentaria mais? E o que me prende aqui, afinal? Talvez mais nada. Até porque ninguém - NINGUÉM - sabe o que passei lá. Tem coisas que só eu sei e que jamais saberei explicar. Ninguém percebe que voltei diferente, afinal o mundo não vai parar por minha causa. Mas o tempo devia ter parado. Ter parado quando eu morava em Lyon...
Mathilde Wynne |
1:19 PM
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Quinta-feira, Abril 17, 2008
Marie & Jié
Marie e Jié eram minhas amigas coreanas de Lyon. Na verdade Marie não é Marie, admito envergonhada que nunca aprendi o nome dela - só sei que é algo como "Hinjoo". De qualquer forma, ela não ligava quando a gente chamava ela de Marie. As meninas eram muito simpáticas e sempre se surpreendiam com a alegria brasileira. Jié era inteligentíssima, conhecia até Caetano Veloso. Falava francês como ninguém - e, convenhamos, para um coreano é muito mais difícil aprender francês do que para um latino - e sempre ria das nossas conversas. As duas tinham mania de rir escondendo a boca com a mão. Marie foi um dia ao cinema comigo - fomos ver Sweeney Todd - e em toda cena pesada e com sangue Marie virava a cara pra não ver. Até hoje só lembro dela quando escuto Johnny Depp cantando Johanna. Marie tinha um namoradinho na Coréia e quando viu uma foto do meu disse: "oh! Il est veau!" "Veau?" "Beau", Jié explicou. Marie sempre confundia o v e o b, como se fossem a mesma consoante. E eu sinto falta delas, anyway.
Mathilde Wynne |
9:11 PM
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Segunda-feira, Março 31, 2008
Terminei hoje de ler A filha do Canibal, da espanhola Rosa Montero. É um romance, um suspense, mas também um livro de reflexões, que discursa sobre a velhice, sobre o amor, sobre a identidade, temas tão banais que parecem já saturados, embora eu acredite que ainda existe muito a dizer sobre eles. E Rosa Montero o faz com maestria. Impossível não se identificar com a personagem-narradora Lucía Montero, cujo marido desaparece subitamente num aeroporto às vésperas do ano-novo. Junto com o ancião Félix e o jovem Adrián, personagens, infelizmente, pouco desenvolvidos e bidimensionais - muito embora Félix mereça boa parte do livro ao contar sua história de vida -, Lucía parte em busca de uma resolução para o mistério.
No que diz respeito a mim, chorei no final do livro. Chorei especialmente em trechos otimistas e positivos, e não me considero sensível por isso, pois há meses não chorava em um livro. Considero, junto com A louca da casa, o melhor livro que li de Rosa. Infinitamente superior ao último lido, História do rei transparente.
Mathilde Wynne |
12:51 AM
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Segunda-feira, Março 03, 2008
Ressuscitando o blog!
Sei lá o que aconteceu, eu simplesmente tava lendo minhas agendas antigas e senti uma saudade da época em que escrevia qualquer besteira... Esse é o primeiro ano desde 1998 que não tenho agenda pra escrever meus compromissos e minhas (des)venturas, mas nada que um espaço virtual não substitua, não é? Inclusive, lendo a Tribo de 2004, achei um poema muito bonito, que na época sublinhei:
quando não sei
o que fazer
e o mundo não
desenha nenhuma
esperança no céu
dá uma vontade
de ir pro cinema
ou nadar no rio
de minha infância
(Aroldo Pereira)
Engraçado que era isso mesmo que eu tava fazendo: nadando no rio da minha infância/adolescência. Esse rio cabe em um compartimento do guarda-roupa de apenas 1x0,5m, mas é riquíssimo em detalhes, reunindo cartas, agendas e fotos.
Ah, ontem aprendi uma palavra nova e bastante engraçada: icnólogo. A icnologia estuda, através do cocô de fósseis, o que os animais comiam podendo, assim, definir o ambiente em que viviam. Rico, não? Seria uma boa profissão pra um personagem de livro. Por falar em livro, estou lendo O amor nos tempos do cólera, mas isso já é assunto para outro post. =)
Mathilde Wynne |
2:56 PM
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Quinta-feira, Novembro 22, 2007
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Mathilde Wynne |
12:54 AM
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Terça-feira, Novembro 20, 2007
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Mathilde Wynne |
10:40 PM
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Mathilde Wynne |
10:39 PM
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Sexta-feira, Dezembro 22, 2006
If I go then I'm alone
If I stay then it will mean
Waiting on my own
It's the pattern of my life
Mathilde Wynne |
2:23 AM
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Quarta-feira, Novembro 08, 2006
^-^
Mathilde Wynne |
1:42 PM
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Terça-feira, Novembro 07, 2006
:P
Mathilde Wynne |
12:27 AM
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Sexta-feira, Outubro 20, 2006
Então...
Tô lendo o segundo romance de Lygia Fagundes. Ambos - Ciranda de Pedra e Verão no Aquário - têm tanto em comum! Suas personagens femininas principais - Virgínia e Raíza, respectivamente - são tão frágeis, tão solitárias, tão abandonadas, que é impossível não se identificar. As duas tentam, sem querer, se aproximar da mãe. As duas têm uma certa rivalidade com essa figura materna. As duas amam o paizinho indefeso, as duas têm raiva do que a mãe causou ao pai, as duas amam/odeiam o amado/amante da mãe. As duas se sentem perdidas e sozinhas e vão se jogando em cada um(a) que lhes dá um pouquinho de atenção. As duas vivem em famílias desequilibradas, que não se conhecem a fundo, e cheias de loucura. E se sentem estranhas mesmo dentro de casa, junto aos parentes. E nos dois romances há um personagem cínico, mas espontâneo, que elas admiram e não entendem - Otávia e Fernando. E nos dois romances há um personagem tão calmo e sereno, e que exerce tanta atração sobre elas, que fica difícil de se aproximar, de alcançá-lo - Conrado e Fernando.
Eu ainda não sei se essa semelhança é boa ou ruim. Não quer dizer que a autora se repita, porque as histórias são diferentes, até... sei lá, pode ser que se repita, mas a gente tem a mesma sensação que teve ao ler o primeiro livro, sem ter a sensação de estar lendo o mesmo livro! E é isso que eu busco quando leio: busco sensações que tive em alguns livros, sensações fortes, e não quero lê-los de novo... quero buscá-las em livros novos. E descobrir novas sensações.
Enfim, está sendo uma ótima descoberta, essa da Lygia romancista. E de uma vez por todas decidi que gosto de romance, não de conto.
Mathilde Wynne |
12:19 PM
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Quarta-feira, Outubro 11, 2006
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Mathilde Wynne |
2:15 PM
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Quarta-feira, Setembro 06, 2006
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Mathilde Wynne |
10:03 PM
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Segunda-feira, Setembro 04, 2006
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Mathilde Wynne |
9:39 PM
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Terça-feira, Julho 11, 2006
"Me, I figure, as each breath goes by
I only own my mind
(...)
I know I was born and I know that I'll die
The in-between is mine
I am mine"
Mathilde Wynne |
11:56 PM
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Terça-feira, Junho 20, 2006
=)
Mathilde Wynne |
2:46 PM
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=D
Mathilde Wynne |
1:56 PM
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